O feriadão, em Angra, foi na casa da querida amiga Lucinha Araújo, mulher que muito admiro por tudo, mas, principalmente, por ter sido o ventre que gerou o genial Cazuza e por manter vivo até hoje seu nome, através da Sociedade Viva Cazuza que ela criou e comanda com garra, determinação e muito carinho. Ano que vem, Cazuza faria 60 anos e o ano marca o 28º aniversário de sua morte. Em janeiro, Lucinha inaugura a Casa de Cultura Cazuza, na casa em que nasceu, em Vassouras, uma forma de presentear o filho ausente no seu sessentão.
Só as mães são felizes: Cazuza e Lucinha (Acervo/Reprodução)

Por especial carinho e deferência da anfitriã, dormi no quarto que era de Cazuza, ainda que ele só tenha ido à casa de Portogalo por duas vezes – mas vive, ali, nas fotos, no bonito óleo que o retrata tão bem, e sempre, sempre, na memória da mãe.

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Pensei muito nele, na sua obra tão espetacular (sempre penso na contemporaneidade de suas composições), composta em tão curta vida. “Vida louca, vida breve, já que não posso te levar, quero que você me leve…” Pensei que ele parecia já saber , nos anos 1980, que o seu Brasil só faria descer ainda mais a ladeira. Não dá pra esquecer: “Brasil, qual é o seu negócio, o nome do seu sócio, confia em mim…”

O negócio do Brasil, sem dúvida, é a patifaria, a canalhice, a mais completa e absoluta falta de escrúpulos e caráter em seus governantes e representantes – digamos – legais. Todos vieram malhados como a droga que tantos consomem. Nem a mais alta Corte do país escapa a um escrutínio mais severo entre seus pares. Cazuza enxergou longe – e perfeitamente. Nasceu velho – só isso explica tamanha clarividência.

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Lucinha Araújo em sua casa de Angra no feriadão ( Foto Anna Ramalho)

Em uma de nossas conversas no fim de semana, Lucinha relembrou – ainda com mágoa e revolta – a escandalosa, maldosa, abominável reportagem da revista Veja – na época editada por Mário Sergio Conti – que veio com uma capa horrorosa e uma reportagem pior ainda, desrespeitando inteiramente o texto apresentado pela repórter Angela de Abreu, na época (1989), hoje minha querida e competentésima cronista Angela Dutra de Menezes, que me dá a honra de escrever semanalmente no meu portal. A ação de Mário Sérgio Conti ( autor do texto final ) e do finado Alessandro Porro ( que dividiu os créditos da reportagem com Angela), fez com que a primeira grande conversa franca e sem rodeios de Cazuza sobre sua doença virasse uma matéria de crueldade impressionante. Tão cruel e tão maldosa que fez o cantor piorar e jogou sua mãe na cama, além de provocar o pedido de demissão de Angela, que não aceitou o que fizeram com sua reportagem. Angela é mulher digna, qualidade que não se pode – e nunca se pôde – atribuir aos demais envolvidos.

Saudade de Cazuza, que faria 60 anos em 2018 (Acervo/Reprodução)

Alessandro Porro morreu pouco depois. Conti anda por aí, tem até programa de TV, mas muito pouca gente gosta da figura. Porro e Conti fecham a matéria apostando que – ao contrário de Noel Rosa, que também morreu muito cedo e deixou mais de 250 sambas imortais – a obra de Cazuza não perduraria . De sua nuvem lá em cima, Caju deve estar rindo muito do que lhe fez chorar então: “Cazuza não é um gênio da música. É até discutível se sua obra irá perdurar, de tão colada que está ao momento presente.”

Sem comentários. Do Porro ninguém lembra mais. E do Conti, quem lembrará daqui a – vá lá – 30 anos?

Cazuza vive. Viva Cazuza!!!!