Anunciado no apagar das luzes desta terça-feira, 15, o fim do vínculo entre o ator José Mayer e a Rede Globo de Televisão pegou alguns jornalistas e expectadores de surpresa muito mais pela impossibilidade de ver o veterano ator de 69 anos na tela, do que por um posicionamento da empresa ligado ao movimento Mexeu com uma Mexeu com Todas.
Ator José Mayer e a Rede Globo de Televisão pegou alguns jornalistas e expectadores de surpresa (Reprodução)

Para quem não se lembra, em 2017, após o término das gravações da novela A Lei do Amor, o ator José Mayer foi acusado pela figurinista Susllem Tonani de assédio sexual, o que movimentou o elenco feminino da emissora a criar o supracitado movimento Mexeu com uma Mexeu com Todas que se alastrou pelas redes sociais e obrigou o ator a divulgar um mea culpa com direito a carta lida durante o Jornal Hoje, principal vespertino da emissora.

A partir de então, Mayer entrou na famigerada “geladeira”, quando um ator não é chamado para nenhum tipo de trabalho ou aparição na casa, fazendo com que sua imagem seja gradativamente esquecida ou, em alguns casos, preparada para outro papel. O nome do ator foi cogitado insistentemente por Aguinaldo Silva para o elenco de sua atual novela O Sétimo Guardião, e o autor foi – e continua sendo – a principal voz em defesa do ex-galã dentro da casa.

Contudo, com a divulgação do comunicado de desligamento de Mayer, a Globo mostrou que decididamente não voltaria atrás. Mas, enquanto busca acenar para pautas progressistas e pregar a total assimilação do cerne do movimento nascido dentro de seu próprio ventre, a emissora na verdade se comprova nada mais senão uma boa estrategista.

Mesmo com a imagem de Mayer desligada de sua grade, a emissora esperou que a poeira baixasse completamente para desligar o ator, fazendo assim com que o público – habituado assimilar a imagem de Mayer à da emissora – aos poucos se desacostumasse com o rosto do ator em obras da casa. Também não há no comunicado menção a banimento do ator de projetos futuros, sendo possível que a porta se mantenha aberta para possíveis participações ou contratos firmados por obra – como já acontece com antigos atores considerados “medalhões” da casa em tempos idos.

Outro ponto importante a se destacar é que a imagem de Mayer já não causa mais o furor de outros tempos. A Globo, portanto, não estaria se desfazendo de um galã no auge de sua carreira, tampouco na aposta de um galã que pode vir a se tornar um grande ator. Pelo contrário.

Inegavelmente um dos melhores atores do cast – ainda que relegado a papéis que tendem a se repetir –, Mayer já não representava necessariamente um chamariz para a audiência feminina. É sim, repito, um grande ator, mas não está mais presente num imaginário popular como já esteve ao se consagrar como o principal galã das novelas de Manoel Carlos, por exemplo.

Mayer tem uma imagem riscada desde a denúncia de Tonani, e isso contribuiu para que seu apagamento na tela se tornasse ainda mais crepuscular. Com as portas abertas no teatro e, volto a dizer, com a possibilidade de retornar facilmente à emissora num contrato de duração menor, José Mayer não deve sair muito prejudicado deste fim de contrato, muito menos a Rede Globo que, diferente do que se especula, não jogou 35 anos de “parceria” (como grifado no comunicado) pelos ares, mas sim abriu a chance de fazer com que ela se renove.

Ainda que pareça apontar para um futuro, a demissão de José Mayer ressoa apenas como um golpe de marketing desferido “em comum acordo” (como também pontua o comunicado). Se Mayer merece ou não ter seu trabalho jogado para escanteio graças à denúncia, esse é outro texto, mas que o público não compre sua “demissão” como um posicionamento definitivo da emissora.